Quando EUA-Israel bombardeiam o Irã, o trabalhador brasileiro paga no supermercado

Israel atacou o Irã. Ormuz fechou. Petróleo disparou 25%. Para o Brasil, a conta chega em duas ondas: gasolina hoje, comida amanhã.

Mapa técnico do Estreito de Ormuz (33km) ligando Golfo Pérsico ao Mar de Omã. Irã ao norte, Omã ao sul. Visual de rotas de navios-tanque atravessando o estreito.
Mapa do Estreito de Ormuz mostrando rotas de navegação entre Golfo Pérsico e Golfo de Omã, região estratégica para petróleo e fertilizantes. Fonte: Goran_tek-en, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O Estreito de Ormuz concentra um quinto do petróleo mundial em movimento. São 33 quilômetros de largura no ponto mais estreito. No dia 28 de fevereiro de 2026, Israel e Estados Unidos lançaram ataque coordenado contra instalações militares e autoridades iranianas em cinco cidades. O Irã respondeu fechando o estreito. Em uma semana, o barril de petróleo Brent saltou de cerca de US$72 para mais de US$90. Alta de 25%. Seguradoras marítimas reagiram em horas, elevando prêmios de guerra entre 0,5% e 1% do valor da carga. Navios começaram a desviar rota, contornando toda a África em vez de usar o Canal de Suez, adicionando 10 a 15 dias de viagem e até 30% no custo do frete.

Para quem vive no Brasil, isso não é notícia distante. O país está no meio dessa guerra de duas formas concretas. Primeiro, na importação: o Brasil compra cerca de 800 mil toneladas de ureia por ano do Irã. A ureia é fertilizante nitrogenado essencial para soja, milho e cana-de-açúcar, culturas que juntas representam 60% da área plantada nacional. Quando o Estreito de Ormuz fecha, o fertilizante iraniano fica sequestrado na origem. Não sai. A safra 2026/27 começa em setembro, e os agricultores já contrataram parte dos insumos. O Brasil precisa buscar fontes alternativas em plena crise de oferta. Vale dizer com clareza: fontes alternativas existem (Rússia, Argélia, Egito). Mas ureia russa está sob sanções ocidentais, dificultando pagamento e logística. A argelina tem capacidade produtiva limitada. A egípcia compete com demanda europeia em pânico. Alternativas são mais caras e demoram de três a quatro meses entre contrato e entrega. Agricultores que já fecharam compra de ureia iraniana não têm margem temporal para trocar sem impacto no custo.

Segundo, na exportação: o Brasil exportou 102 milhões de toneladas de soja em 2025, sendo 75% destinados à China. Esses grãos saem de Santos, Rio Grande, Paranaguá, atravessam o Atlântico, contornam a África e cruzam o Oceano Índico até o Estreito de Malaca antes de chegar a portos chineses. A soja brasileira não passa fisicamente pelo Estreito de Ormuz. Mas o custo de navegar pelo Índico dispara quando o conflito no Golfo Pérsico explode. Seguradoras calculam prêmio de guerra com base no risco regional, não apenas na rota específica. Quando Ormuz fecha e o petróleo Brent salta 25%, o seguro marítimo encarece para qualquer navio navegando águas próximas ao Oriente Médio. O frete também. Transportadoras já suspenderam reservas de novos embarques. O Banco Central sinalizou em nota técnica de 04 de março que monitora o impacto na inflação. Quando o BC monitora algo publicamente, não é só protocolo. É reconhecimento de risco concreto.

O mecanismo por trás é geopolítico e estrutural ao mesmo tempo. Israel e Estados Unidos atacaram o Irã visando mudança de regime. O Irã usa o Estreito de Ormuz como arma estratégica: fechar o estreito pressiona economias dependentes de petróleo do Golfo. Historicamente, crises no Golfo Pérsico elevam o preço do petróleo. Foi assim em 1979, em 1990, em 2012. Dessa vez não foi diferente. Mas para o Brasil, o problema não começa nem termina no petróleo.

Uma imagem de satélite de alta resolução cortada em 4:3 focando diretamente no Estreito de Ormuz, mostrando o 'gargalo' onde 33 km de largura definem a rota do petróleo e o custo dos fertilizantes.
Visão de satélite nítida focando no Estreito de Ormuz. Fonte: MODIS Land Rapid Response Team, NASA/GSFC, Public domain, via Wikimedia Commons.

A dependência de fertilizantes importados é resultado de escolha política. O país tem reservas de fosfato e potássio. Tem capacidade mineral. Mas não investiu em capacidade industrial de processamento. Resultado: 85% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes do governo federal. Quando a região produtora entra em conflito, o Brasil não tem alternativa de curto prazo. Fica refém do mercado global. A meta oficial é reduzir dependência de 85% para 45% até 2050. Até lá, cada crise no Golfo Pérsico afeta diretamente o custo de plantar soja, milho e cana no Brasil.

Enquanto o custo brasileiro explode, concorrentes conseguem manter preços estáveis. Estados Unidos exportam soja para a China pelo Oceano Pacífico, longe do conflito no Golfo. E produzem o próprio fertilizante nitrogenado, usando gás natural doméstico. Não dependem de ureia iraniana. Argentina tem dependência menor de fertilizantes do Irã no curto prazo, com contratos mais diversificados. Quando o Brasil precisa pagar mais caro por ureia egípcia ou argelina em plena crise de oferta, americanos e argentinos mantêm custo de produção estável. Competitividade é jogo fino. Se o Brasil fica mais caro, a China compra de quem ficou mais barato.

Para o trabalhador brasileiro, a conta chega em duas ondas. Primeira, imediata: gasolina e diesel sobem assim que o petróleo Brent dispara. O real se desvalorizou no dia seguinte ao ataque, pressionado pelo pânico no mercado global. Importados ficam mais caros de imediato. Segunda onda, médio prazo: fertilizante mais caro eleva o custo da safra. Produtor repassa. Atacadista repassa. Supermercado repassa. Alimentos básicos encarecem: arroz, feijão, óleo de soja, carne que depende de milho na ração. Historicamente, choques no preço de fertilizantes levam de seis a nove meses para aparecer no supermercado, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da USP e da Fundação Getulio Vargas. Mas aparecem. Sempre aparecem.

O Banco Central pediu "serenidade" ao avaliar o impacto. Serenidade é palavra técnica para "não entrem em pânico". Mas o Banco Central tem papel de acalmar mercado para evitar especulação. Isso não significa que o impacto seja pequeno. A mesma nota que pede serenidade confirma que a instituição está monitorando. Quando o BC monitora, é porque considera o cenário não desprezível. Inflação de alimentos no Brasil tem componente estrutural forte: 85% dos fertilizantes são importados, 26% do diesel consumido também vem de fora. Não é só questão de expectativa. É estrutura.

O Brasil não está distante da guerra no Golfo Pérsico. Está no meio dela. Importa ureia iraniana para plantar soja, e quando Ormuz fecha, o fertilizante fica sequestrado na origem. Exporta grãos que navegam pelo Oceano Índico, onde seguros e fretes disparam quando o Golfo entra em conflito. Quando Israel e Estados Unidos atacam o Irã, o petróleo reage. Quando o petróleo reage, gasolina sobe hoje e fertilizantes encarecem amanhã. Quando fertilizantes encarecem, comida encarece. A conta desce até chegar em quem não tem margem para absorver o choque. O trabalhador brasileiro paga a conta no supermercado. Sempre paga.