A Logística do Genocídio: Onde o BRICS+ encontra Israel

Por trás da retórica humanitária na ONU, o rastro de óleo e carvão revela quem são os novos cães de guarda de uma estrutura que finge combater, enquanto garantem o fôlego da máquina genocída de Israel.

Fotografia oficial da Cúpula do BRICS Brasil 2025, mostrando dezenas de líderes mundiais posando para foto em grupo. Ao centro, figuras como Lula, Narendra Modi e Cyril Ramaphosa.
Líderes do BRICS+ posam para foto oficial no Brasil, enquanto o rastro contábil de óleo e carvão alimenta massacres que o bloco finge condenar. Fonte: Prime Minister's Office (GODL-India), GODL-India, via Wikimedia Commons

O mundo assiste a um teatro de sombras onde a diplomacia de Brasília e Pretória grita "justiça" nos tribunais da ONU, enquanto o balanço contábil garante que a máquina de guerra de Israel não fique sem fôlego. O que se vende como "multipolaridade" é, na verdade, uma gerência regional do mesmo imperialismo de sempre. O BRICS+ não está aqui para implodir o sistema de Washington; eles se tornaram os novos cães de guarda de uma ordem que fingem combater, cobrando apenas uma comissão maior para manter o sistema de pé e os portos funcionando.

A prova de que a solidariedade é apenas mercadoria está no rastro de óleo e carvão que alimenta o massacre. Enquanto o Itamaraty nas redes sociais condena bombardeios, a Petrobras garante quase 10% do petróleo que Israel consome, operando via atravessadores italianos para manter a fachada de mãos limpas. O cinismo também atravessa o oceano e desembarca na África do Sul: o governo que lidera o processo por genocídio no Tribunal Internacional de Justiça é o mesmo que fornece cerca de 15% da eletricidade de Tel Aviv através de 3 milhões de toneladas de carvão. O detalhe que ninguém conta é que essas minas pertencem à elite ligada ao próprio presidente Ramaphosa. No palco global, o discurso é para a militância, mas o combustível que ilumina o quartel-general do inimigo sai direto dos portos do "Sul Global".

Essa traição não é apenas energética; é militar e estratégica. A Índia de Narendra Modi, que posa de líder dos emergentes, já se ajoelhou completamente aos interesses de Washington e Tel Aviv. O alinhamento é tão servil que, quando o navio de guerra iraniano Dena foi afundado por um torpedo norte-americano logo após sair de exercícios militares em águas indianas, Nova Deli preferiu o silêncio covarde a defender um parceiro de bloco. O detalhe cruel é que o exercício do qual o Dena participava aconteceu a convite da própria Índia. Para o governo Modi, o 'casamento' estratégico e os acordos de armas com Netanyahu valem mais do que qualquer pacto com os vizinhos do BRICS. É a política do 'sim, mestre' ditada diretamente da Casa Branca.

Até mesmo a China, que muitos pintam como a grande rival do Ocidente, opera em perfeita sintonia com o capital israelense. Pequim não só gerencia o novo porto de Haifa, como construiu o porto de Ashdod especificamente para quebrar o poder dos sindicatos locais e garantir o fluxo de mercadorias. Netanyahu chamou essa relação de "casamento feito no céu", e os números confirmam: o comércio bilateral cresce 5% ao ano enquanto as bombas caem sobre Gaza. No Conselho de Segurança da ONU, o silêncio de Moscou e Pequim sobre o plano de Donald Trump para lotear Gaza e transformá-la em um condomínio de luxo, a chamada "Riviera do Oriente Médio", sela o destino da região. Eles não vetaram o plano porque estão de olho na reconstrução e nos lucros que virão.

Para completar o estelionato intelectual, a promessa de "desdolarização" e salvação do planeta é uma piada de mau gosto. O Banco do BRICS+ mantém 70% dos seus empréstimos em dólar e implora pela benção das agências de risco americanas. No clima, a traição é antiga: desde 2009, Brasil, China e Índia formam uma "liga de superpoluidores" que atua em conjunto com os EUA para impedir qualquer corte real nas emissões que prejudique o lucro das suas mineradoras e petroleiras. Eles não querem salvar o mundo do apocalipse climático ou do dólar; querem apenas o direito de explorar, poluir e lucrar. No fim, o BRICS+ é o cão que não late para o império porque está ocupado demais roendo o osso das commodities.