A Logística do Genocídio: Onde o BRICS+ encontra Israel
Por trás da retórica humanitária na ONU, o rastro de óleo e carvão revela quem são os novos cães de guarda de uma estrutura que finge combater, enquanto garantem o fôlego da máquina genocída de Israel.
O mundo assiste a um teatro de sombras onde a diplomacia de Brasília e Pretória grita "justiça" nos tribunais da ONU, enquanto o balanço contábil garante que a máquina de guerra de Israel não fique sem fôlego. O que se vende como "multipolaridade" é, na verdade, uma gerência regional do mesmo imperialismo de sempre. O BRICS+ não está aqui para implodir o sistema de Washington; eles se tornaram os novos cães de guarda de uma ordem que fingem combater, cobrando apenas uma comissão maior para manter o sistema de pé e os portos funcionando.
A prova de que a solidariedade é apenas mercadoria está no rastro de óleo e carvão que alimenta o massacre. Enquanto o Itamaraty nas redes sociais condena bombardeios, a Petrobras garante quase 10% do petróleo que Israel consome, operando via atravessadores italianos para manter a fachada de mãos limpas. O cinismo também atravessa o oceano e desembarca na África do Sul: o governo que lidera o processo por genocídio no Tribunal Internacional de Justiça é o mesmo que fornece cerca de 15% da eletricidade de Tel Aviv através de 3 milhões de toneladas de carvão. O detalhe que ninguém conta é que essas minas pertencem à elite ligada ao próprio presidente Ramaphosa. No palco global, o discurso é para a militância, mas o combustível que ilumina o quartel-general do inimigo sai direto dos portos do "Sul Global".
Essa traição não é apenas energética; é militar e estratégica. A Índia de Narendra Modi, que posa de líder dos emergentes, já se ajoelhou completamente aos interesses de Washington e Tel Aviv. O alinhamento é tão servil que, quando o navio de guerra iraniano Dena foi afundado por um torpedo norte-americano logo após sair de exercícios militares em águas indianas, Nova Deli preferiu o silêncio covarde a defender um parceiro de bloco. O detalhe cruel é que o exercício do qual o Dena participava aconteceu a convite da própria Índia. Para o governo Modi, o 'casamento' estratégico e os acordos de armas com Netanyahu valem mais do que qualquer pacto com os vizinhos do BRICS. É a política do 'sim, mestre' ditada diretamente da Casa Branca.
Até mesmo a China, que muitos pintam como a grande rival do Ocidente, opera em perfeita sintonia com o capital israelense. Pequim não só gerencia o novo porto de Haifa, como construiu o porto de Ashdod especificamente para quebrar o poder dos sindicatos locais e garantir o fluxo de mercadorias. Netanyahu chamou essa relação de "casamento feito no céu", e os números confirmam: o comércio bilateral cresce 5% ao ano enquanto as bombas caem sobre Gaza. No Conselho de Segurança da ONU, o silêncio de Moscou e Pequim sobre o plano de Donald Trump para lotear Gaza e transformá-la em um condomínio de luxo, a chamada "Riviera do Oriente Médio", sela o destino da região. Eles não vetaram o plano porque estão de olho na reconstrução e nos lucros que virão.
Para completar o estelionato intelectual, a promessa de "desdolarização" e salvação do planeta é uma piada de mau gosto. O Banco do BRICS+ mantém 70% dos seus empréstimos em dólar e implora pela benção das agências de risco americanas. No clima, a traição é antiga: desde 2009, Brasil, China e Índia formam uma "liga de superpoluidores" que atua em conjunto com os EUA para impedir qualquer corte real nas emissões que prejudique o lucro das suas mineradoras e petroleiras. Eles não querem salvar o mundo do apocalipse climático ou do dólar; querem apenas o direito de explorar, poluir e lucrar. No fim, o BRICS+ é o cão que não late para o império porque está ocupado demais roendo o osso das commodities.